A Prisão de Arsène Lupin
Que viagem estranha! E ela havia começado tão bem... Jamais imaginaria tal fim para algo que começara de forma tão auspiciosa. O Provence era um transatlântico a vapor rápido e confortável, capitaneado por um homem muito afável. Os passageiros se constituíam da nata da sociedade. Nosso passatempo eram as novas amizades e as diversões improvisadas. Havia uma sensação deliciosa de estarmos separados do mundo, vivendo como se estivéssemos em uma ilha desconhecida, de forma que éramos obrigados a socializar uns com os outros.
Ainda assim, nos aproximávamos...
Já parou para pensar quanta originalidade e espontaneidade emana desses muitos indivíduos que, até a noite anterior, não se conheciam e que, por muitos dias, estão presos entre o céu infinito e o mar imenso, condenados a uma vida de extrema intimidade em que desafiarão a fúria do oceano, as ondas inclementes, a violência das tempestades e o perigo sorrateiro das águas tranquilas?
É uma experiência que se torna uma espécie de momento passageiro trágico, como um simulacro da própria vida, com as suas tempestades e esplendores, sua monotonia e variedade, e é por isso que, talvez, embarquemos em tais viagens curtas com uma pressa febril e um prazer ainda mais intenso cujo fim deslumbramos mesmo no seu início.
Mas, durante os últimos anos, uma nova sensação singular foi adicionada à vida do viajante transatlântico. Agora, a pequena ilha flutuante está atrelada ao mundo de onde antes era livre, restando um elo que só aos poucos se desfaz e se refaz no coração do oceano Atlântico: o telégrafo sem fio! É por ele que recebemos a notícia de uma forma muito misteriosa. A imaginação não permite mais pensar nos fios que transportam essa mensagem invisível. Não, o mistério é ainda mais intrincado, e também mais romântico, pois são as asas do vento que permitem este novo milagre.
Graças a ele, durante as primeiras horas da viagem, nos sentimos seguidos, escoltados, ou até precedidos, por aquela voz distante que, de vez em quando, sussurrava algumas palavras vindas do mundo que se distanciava. Dois amigos me mandaram mensagens. Outros dez ou vinte enviaram suas despedidas tristes ou alegres para outros passageiros.
Já no segundo dia, a uma distância de cerca de quinhentas milhas da costa francesa, no meio de uma tempestade violenta, o telégrafo sem fio nos trouxe a seguinte mensagem:
"Arsène Lupin está no navio, primeira classe, cabelos loiros, antebraço direito ferido, viaja sozinho sob o nome de R—".
Um trovão rompeu os céus nebulosos enquanto a mensagem era ouvida. As ondas elétricas foram interrompidas. O restante dela nunca chegou até nós. Sabíamos apenas a inicial do nome sob o qual Arsène Lupin se escondia.
Se fosse qualquer outra notícia, não tenho dúvidas de que o segredo teria sido cuidadosamente resguardado pelo operador do telégrafo, bem como pelo comissário e pelo capitão. Mas esse era um daqueles acontecimentos feitos para escapar da discrição mais rigorosa. No mesmo dia, não se sabe como, o caso se tornou a fofoca do momento, e todos os passageiros sabiam que o famoso Arsène Lupin se encontrava entre nós.
Arsène Lupin entre nós! O gatuno esquivo cujas façanhas haviam sido relatadas em todos os jornais por meses! A figura enigmática com quem Ganimard, o policial mais astuto da França, travava um duelo mortal que se desenrolava nas situações mais pitorescas! Arsène Lupin, o cavalheiro excêntrico que atua apenas nos palacetes e salões e que, certa noite, entrou na residência do Barão Schormann, mas saiu de mãos abanando, deixando apenas seu cartão de visitas com a seguinte mensagem: "Arsène Lupin, ladrão de casaca, retornará quando a mobília for autêntica." Arsène Lupin, o homem de mil disfarces: por vezes um chauffer, um cantor, um agente de apostas, um filho de berço de ouro, um adolescente, um velho, um caixeiro viajante marselhês, médico russo ou toureiro espanhol!
Então, imaginem nossa situação: Arsène Lupin estava vagando pelos limites de um transatlântico. Imagine! Neste nosso pequeno canto do mundo, ele podia estar em qualquer lugar, no salão de jantar, ou no salão dos fumantes ou no salão de música! Arsène Lupin podia ser este cavalheiro… ou aquele… ou meu vizinho de mesa… ou até mesmo meu companheiro de cabine…
– E teremos que suportar esta situação por mais cinco dias! – exclamou a Srta. Nelly Underdown na manhã seguinte. – Que intolerável! Espero que ele seja preso logo.
Então, se endereçando a mim, adicionou:
– E você, Monsieur d'Andrézy, que tem as boas graças do capitão, não sabe de nada?
Ah, como eu gostaria de saber de algo para agradar a Srta. Nelly! Ela era uma daquelas mulheres magníficas que sempre acabam por se destacar em qualquer situação. Riqueza e beleza são uma combinação irresistível, e Nelly tinha as duas.
Ela estudou em Paris, sob os cuidados de sua mãe, francesa, e agora estava indo visitar o pai, o milionário Underdown de Chicago, acompanhada de uma de suas amigas, Lady Jerland.
Decidi, desde o início, que flertaria abertamente com ela. No entanto, com o avanço rápido da intimidade permitida pela viagem, logo fiquei impressionado pelo seu charme e meus sentimentos afloraram quando aqueles lindos olhos negros encontraram os meus. E mais, ela recebeu minhas atenções com certo favor. Ela se dignou a rir das minhas brincadeiras e pareceu interessada nas minhas anedotas. Eu sentia uma leve simpatia em resposta à minha ânsia de agradar.
Minha única preocupação era um rival, um rapaz bastante bonito e refinado, reservado, cujo humor taciturno ela às vezes parecia preferir aos meus modos parisienses mais frívolos.
Ele era apenas parte do grupo de admiradores que cercava a Srta. Nelly no momento em que ela me lançou aquela pergunta. Todos estávamos sentados confortavelmente no convés. A tempestade do dia anterior havia se transformado em um céu aberto. O clima estava uma delícia.
– Não sei de nada específico, mademoiselle, – respondi – mas será que não podemos, nós mesmos, investigar o mistério da mesma forma que o faria o detetive Ganimard, o inimigo pessoal de Arsène Lupin?
– Ah! Você pensa rápido, monsieur!
– De forma alguma, mademoiselle. A mademoiselle acha que é um mistério muito complicado?
– Sim, deveras complicado.
– É porque já se esqueceu que temos todos os elementos para solucioná-lo.
– E quais são eles?
– Em primeiro lugar, Lupin está usando o nome de "Monsieur R—".
– Que é uma informação muito vaga.
– Em segundo lugar, ele viaja sozinho.
– E isso já lhe serve?
– Em terceiro, ele é loiro.
– Sim, e?
– E então temos que apenas consultar a lista de passageiros e fazer um processo de eliminação.
Eu já estava com a lista no meu bolso. Depois de pegá-la, dei uma lida rápida.
– Vejo aqui que há apenas treze homens na lista cujos nomes começam com a letra "R".
– Apenas treze?
– Sim, pelo menos na primeira classe. E, desses treze, posso ver que nove estão acompanhados por mulheres, crianças ou empregados. Isso nos deixa quatro que viajam sozinhos. Primeiro, o Marquês de Raverdan…
– Ele é o secretário da embaixada americana, – interrompeu a Srta. Nelly – eu o conheço.
– Major Rawson…
– Ele é meu tio – disse alguém.
– Monsieur Rivolta.
– Aqui! – exclamou um italiano que estava entre nós, cujo rosto desaparecia por trás de uma bela barba negra.
A Srta. Nelly começou a rir:
– Ninguém poderia dizer que este senhor é loiro!
– Muito bem, então – continuei – somos forçados a concluir que o culpado é o último da lista.
– E como ele se chama?
– Monsieur Rozaine. Alguém conhece o Monsieur Rozaine?
Ninguém respondeu. Mas a Srta. Nelly se virou para o rapaz taciturno, cuja atenção prestada à ela me incomodava, e disse:
– Então, M. Rozaine, por que não diz nada?
Todos os olhos se viraram para ele. Ele era loiro.
Devo admitir que eu mesmo fiquei um pouco chocado, e o silêncio constrangedor que se seguiu à pergunta dela mostrou que os outros presentes também sentiam o mesmo alarme. E mais, havia algo de absurdo na situação, pois o rapaz em questão apresentava o ar da mais perfeita inocência.
– Ora, por que não respondo? – ele disse. – Porque, considerando meu nome, minha condição de viajante solitário e a cor do meu cabelo, eu mesmo já fiz a mesma conclusão, de forma que sinto que deveria ser preso.
Tinha algo de estranho nele ao falar isso. Seus lábios finos estavam mais apertados que o normal, e ele estava estranhamente pálido, com os olhos marcados de vermelho. É claro, ele estava brincando, mas, ainda assim, sua aparência e atitude nos causaram uma estranha impressão.
– Mas você não tem o ferimento, não é? – perguntou, ingenuamente, a Srta. Nelly.
– Isso é verdade, – ele respondeu – não estou ferido.
Com um gesto nervoso, ele removeu a abotoadura e levantou a manga para nos mostrar o braço. Mas eu notei algo de errado e meu olhar se encontrou com o da Srta. Nelly, nós dois pensando o mesmo: ele havia nos mostrado o braço esquerdo.
Eu estava prestes a apontar isso quando um incidente desviou nossa atenção. Lady Jerland, a amiga da Srta. Nelly, veio correndo na nossa direção, em pânico, gritando:
– Minhas joias, minhas pérolas! Alguém roubou tudo!
Na verdade, logo descobrimos que nem tudo havia sido levado. Era muito mais curioso: o ladrão havia escolhido apenas parte das joias!
Dentre as estrelas de diamantes, os pingentes de rubi, os colares e braceletes, o ladrão havia levado não as pedras maiores, mas as mais finas e preciosas, aquelas que pode-se imaginar que seriam mais valiosas e ocupariam menos espaço. As armações ainda estavam jogadas na mesa. Nós as vimos ali, despojadas de suas joias como flores das quais foram arrancadas as lindas pétalas coloridas.
O roubo deve ter sido cometido quando Lady Jerland tomava chá, em plena luz do dia, e em uma cabine que dava para um corredor movimentado. Foi necessário arrombar a porta, procurar pelo porta-joias escondido no fundo de uma caixa de chapéu e ainda escolher as joias que levaria!
Todos os passageiros chegaram, é claro, à mesma conclusão: foi obra de Arsène Lupin. De fato, o ato foi feito seguindo seus métodos misteriosos e inconcebíveis. Ao mesmo tempo, era lógico: seria difícil de esconder algo mais volumoso, de forma que seria mais fácil carregar pérolas, esmeraldas e safiras soltas.
Dessa forma, no jantar do mesmo dia, os assentos à direita e à esquerda de Rozaine ficaram vazios. E, à noite, ficamos sabendo que o capitão ordenara sua prisão, para nosso grande alívio.
Pudemos respirar novamente. Naquela noite, voltamos aos nossos jogos e danças. A Srta. Nelly, especialmente, demonstrava uma alegria tão verdadeira que fiquei convencido de que, mesmo que as atenções de Rozaine a agradassem no início, ela já as havia superado. Seu charme e bom humor terminaram de me conquistar. À meia-noite, sob a luz do luar, declarei minha devoção a ela com uma emoção que não pareceu desagradá-la.
Mas, no dia seguinte, para espanto de todos, Rozaine foi liberado. Parece que as evidências contra ele não eram suficientes.
Ele apresentou documentos perfeitamente válidos, que mostravam que era o filho de um rico comerciante de Bordeaux. Além disso, não tinha o menor sinal de ferimento nos braços.
– Documentos! Certidão de nascimento! – exclamaram os inimigos de Rozaine. – É claro que Arsène Lupin teria tudo isso se precisasse! E, quanto ao ferimento, ele nunca existiu… ou conseguiu apagá-lo.
No entanto, foram obtidas provas de que Rozaine passeava no deque na hora do roubo. Quanto a isso, os inimigos dele argumentaram que um homem como Arsène Lupin poderia cometer um crime sem estar presente. Ainda assim, tirando todas essas questões, ainda havia um ponto que até o mais cético não podia responder: quem, além de Rozaine, viajava sozinho, era loiro e tinha um nome que começava com a inicial "R"? O telegrama apontava para quem além de Rozaine?
E, quando Rozaine, alguns minutos antes do desjejum, veio ousadamente até nosso grupo, a Srta. Nelly e Lady Jerland se levantaram e foram embora. O medo permanecia.
Uma hora mais tarde, uma mensagem foi passada de mão em mão pelos funcionários, marinheiros e passageiros de todas as classes. Ela anunciava que o Monsieur Louis Rozaine oferecia uma recompensa de dez mil francos para quem desmascarasse Arsène Lupin ou descobrisse quem estava com as joias roubadas.
– E, se ninguém me ajudar, eu mesmo desmascararei o desgraçado – declarou Rozaine.
Rozaine contra Arsène Lupin ou, como diziam alguns, Arsène Lupin contra ele mesmo, um embate que certamente seria interessante.
Nada aconteceu durante os próximos dois dias. Vimos Rozaine vagando de um lado para o outro, falando com todos, indagando e investigando. Era possível ver a sombra dele errando pela noite.
O capitão, por sua parte, também demonstrou uma postura bem enérgica. Ele ordenou que o Provence fosse vasculhado de proa à popa. Todas as cabines foram reviradas, sem exceção, com a ideia de que as joias podiam estar escondidas em qualquer lugar, exceto no quarto do próprio ladrão.
– Imagino que logo descubram algo, não acha? – a Srta. Nelly me perguntou. – Ele pode ser um mago do crime, mas não pode fazer diamantes e pérolas desaparecerem.
– Certamente não, – respondi – mas deviam examinar os forros dos nossos chapéus e coletes e tudo mais que carregamos conosco.
E, mostrando a ela minha câmera 9x12, com a qual eu a fotografara nas mais diversas poses:
– Em uma câmera tão pequena quanto esta já é possível esconder todas as joias da Lady Jerland. Basta fingir que você está tirando fotos e ninguém suspeitaria.
– Mas eu ouvi dizer que não há ladrão que não deixe uma pista para trás.
– Isso pode ser, mas há uma exceção: Arsène Lupin.
– Por quê?
– Porque ele pensa não apenas no crime que vai cometer, mas também em todas as circunstâncias que servem como pista para a identidade dele.
– Você estava mais confiante antes.
– Estava, mas, desde então, vi o trabalho dele.
– E o que você acha agora?
– Na minha opinião, estamos perdendo tempo.
E, de fato, as investigações não produziram resultado algum. Na verdade, durante elas, o relógio do capitão fora roubado.
Furioso, ele redobrou seus esforços e colocou uma vigia ainda maior sobre Rozaine. Mas, ironia das ironias, o relógio foi encontrado no dia seguinte, escondido entre os colarinhos do primeiro imediato.
O feito surpreendente foi prodigioso, demonstrando o lado mais divertido de Arsène Lupin que, além de ladrão, também era um diletante que combinava o trabalho com o lazer. Ele lembrou a todos do roteirista que morria de rir das piadas e das cenas da própria peça. Ficou claro que ele era um artista da sua área e, quando vislumbrei Rozaine, lúgubre e tão reservado, e pensei no papel duplo que ele desempenhava, não pude vê-lo sem certa admiração.
Porém, na noite seguinte, o oficial de guarda no deque ouviu gemidos vindos de um canto escuro. Ele se aproximou e encontrou um homem jogado ali, com a cabeça enrolada em um grosso lenço cinza e as mãos amarradas com uma corda.
O oficial acudiu o coitado rapidamente e seus ferimentos foram tratados.
O homem era Rozaine.
Ele havia sido atacado e roubado durante uma de suas expedições noturnas. Preso na lapela dele, encontraram um cartão com as seguintes palavras: "Arsène Lupin aceita com prazer os dez mil francos oferecidos pelo Monsieur Rozaine." E, de fato, a carteira que haviam roubado de Rozaine continha vinte mil francos.
É claro, alguns ainda acusaram o pobre coitado de ter fingido o ataque contra ele mesmo. Mas, não só teria sido impossível para que ele se prendesse daquela forma, também foi provado que a letra de quem escreveu o cartão era completamente diferente da de Rozaine. Pelo contrário, ela era semelhante à de Arsène Lupin, como conseguiram provar ao compará-la com um cartão do ladrão reproduzido em um jornal antigo que estava a bordo.
Assim, Rozaine não era mais Arsène Lupin. Era apenas Rozaine, o filho de um comerciante de Bordeaux. E a presença de Arsène Lupin foi, mais uma vez, afirmada através de um ato formidável.
Os passageiros foram tomados pelo terror. Ninguém mais ousava ficar sozinho em sua cabine nem a se aventurar pelas partes menos frequentadas do navio. Andávamos junto de quem mais confiávamos, por segurança. E, ainda assim, uma desconfiança estranha se espalhou entre as relações mais íntimas. A ameaça não vinha mais de uma pessoa isolada, monitorada e, portanto, menos perigosa. Arsène Lupin agora podia ser… qualquer um. Nossas imaginações aguçadas atribuíam a ele um poder milagroso e infinito. Nós o imaginávamos capaz de assumir os disfarces mais inesperados. Ele podia ser, por vez, o respeitável Major Rawson, ou o nobre Marquês de Raverdan, ou até — pois já não éramos detidos pela acusadora letra "R" — alguém muito conhecido por todos, com esposa, filhos e empregados.
As primeiras mensagens de telégrafo sem fio da América não nos trouxeram novidades. Pelo menos, nenhuma que o capitão tenha nos comunicado. O silêncio não nos tranquilizou.
Nosso último dia no transatlântico parecia interminável. Todos nós estávamos em uma expectativa constante de algum infortúnio. Dessa vez, não seria mais um simples roubo ou um furto relativamente inofensivo, seria um crime, um homicídio. Ninguém aceitava que Arsène Lupin se limitaria àqueles dois roubos insignificantes. Ele se tornara o senhor absoluto do navio e as autoridades foram reduzidas à impotência. Ele podia fazer o que quisesse. Nossos bens e vidas estavam à sua mercê.
Ainda assim, aquelas últimas horas foram deliciosas para mim, pois me garantiram a confiança da Srta. Nelly. Impressionada com os acontecimentos chocantes e de uma disposição naturalmente ansiosa, ela veio a mim, espontaneamente, em busca da proteção e segurança que tive prazer em lhe oferecer.
No fundo, abençoei o nome de Arsène Lupin. Afinal, não fora ele que nos unira? Não foi graças a ele que agora eu podia me deleitar com os mais belos sonhos? Sonhos de amor e sonhos mundanos que, agora, eu podia confidenciar para a Srta. Nelly. O nome Andrézy tinha uma boa linhagem, mesmo que seu brasão já estivesse um pouco gasto, mas não parecia indigno que um cavalheiro sonhasse em restaurar o brilho que seu nome perdera.
Senti que meus sonhos não a ofendiam. Os olhos sorridentes dela pareciam me autorizar a fazê-los. A gentileza da voz dela me dava esperanças.
Ficamos juntos, até o último momento, apoiados nas grades vendo a aproximação da costa americana.
As buscas haviam sido interrompidas neste ponto. Estávamos esperando, ansiosamente pelo momento supremo em que o enigma seria finalmente explicado. Quem era Arsène Lupin? Sob qual nome, sob qual disfarce, se escondia o famoso Arsène Lupin?
E, por fim, o momento supremo chegou. Mesmo que eu vivesse cem anos, não esqueceria sequer um detalhe.
– Como você está pálida, Srta. Nelly – falei para minha companheira, que, quase desmaiando, se apoiava no meu braço.
– E você! – ela respondeu – Ah, tem algo de diferente em você!
– Imagine! Estou feliz de passar esse momento tão emocionante com você, Srta. Nelly. Espero que sua memória possa…
Mas ela não me ouvia mais. Ela estava nervosa, quase febril. A passarela foi colocada na posição, mas, antes que pudéssemos descer por ela, subiram funcionários da alfândega a bordo. A Srta. Nelly murmurou:
– Eu não me surpreenderia se descobríssemos que Arsène Lupin escapou do navio durante a viagem.
– Ele pode ter preferido a morte à desonra, mergulhando no Atlântico para que não fosse preso.
– Não faça piadas – ela disse, irritada.
Me surpreendi e, respondendo a dúvida dela, apontei:
– Vê aquele senhorzinho ali, ao final da passarela?
– Aquele com um guarda-chuva e um sobretudo verde oliva?
– É o Ganimard.
– Ganimard?
– Sim, o famoso detetive que jurou capturar Arsène Lupin com as próprias mãos. Ah! Agora entendo porque não recebemos notícias daqui da América, Ganimard estava aqui! Ele sempre mantém seus assuntos em segredo.
– Então Arsène Lupin certamente será preso, não?
– Quem sabe? Parece que Ganimard nunca viu seu rosto, apenas maquiado e disfarçado. A menos que ele saiba o nome falso de Arsène Lupin…
– Oh! – ela exclamou, com aquele toque mórbido peculiar às mulheres. – Adoraria vê-lo sendo preso.
– Precisamos ser pacientes. Arsène Lupin certamente já notou que seu inimigo está aqui. Ele vai preferir ficar entre os últimos passageiros, quando os olhos do velho já estiverem cansados.
O desembarque começou. Ganimard, apoiado no guarda-chuva e com um ar indiferente, parecia não estar prestando atenção na multidão que se espremia na passarela.
O Marquês de Raverdan, o Major Rawson, o italiano Rivolta, e muitos outros já haviam desembarcado quando Rozaine apareceu. Pobre Rozaine! Ele parecia não ter se recuperado de suas desventuras.
– Talvez seja ele mesmo, – comentou a Srta. Nelly – o que você acha?
– Acho que seria interessante ter uma foto com Ganimard e Rozaine juntos. Pegue a câmera para mim? Estou com as mãos cheias.
Eu lhe passei a câmera, mas foi tarde demais para ela usá-la. Rozaine já havia passado pelo detetive. Um oficial americano, atrás de Ganimard, se inclinou e sussurrou ao ouvido do detetive. O francês deu de ombros e deixou Rozaine passar.
Então, meu Deus, quem era Arsène Lupin?
– Ora, – disse a Srta. Nelly em voz alta – quem poderia ser?
Restavam menos de vinte pessoas a bordo. Ela as observou cuidadosamente, uma de cada vez, temendo que Arsène Lupin não estivesse entre elas.
– Não podemos esperar muito mais – eu disse.
Ela começou a ir para a passarela. Eu a segui. Mas mal havíamos dado dez passos quando Ganimard nos barrou.
– O que é isso?! – eu exclamei.
– Um momento, monsieur. Por que a pressa?
– Estou escoltando a mademoiselle.
– Um momento – ele repetiu com um tom autoritário. Então, olhando no fundo dos meus olhos, disse:
– Você é Arsène Lupin, não é?
Eu ri e respondi:
– Não, sou apenas Bernard d'Andrézy.
– Bernard d'Andrézy morreu na Macedônia três anos atrás.
– Ora, se Bernard d'Andrézy morreu, eu não poderia estar aqui. Você se enganou. Aqui estão meus documentos.
– Os documentos são dele, e posso dizer exatamente como eles foram parar em suas mãos.
– Você está louco! – eu exclamei. – Arsène Lupin estava usando um nome começando com "R"!
– Claro, mais um dos seus truques, uma pista falsa para despistar a todos. Você jogou bem, meu amigo, mas, desta vez, sua sorte mudou. Venha, Lupin, não seja um mau perdedor.
Hesitei por um momento. Então, ele me acertou um forte golpe no braço direito. Gritei de dor. Ele havia atingido a ferida ainda não curada que foi comentada no telegrama.
Fui forçado a me render. Não havia outra alternativa. Virei-me para a Srta. Nelly, que ouvia tudo, lívida e inquieta.
Nossos olhos se encontraram. Então, ela olhou para a câmera que eu lhe entregara. Ela fez um gesto repentino e tive a impressão de que ela entendera tudo. Sim, ali, entre as dobras estreitas de couro preto, em um espaço do pequeno objeto, que eu tive o cuidado de colocar em suas mãos antes que Ganimard me prendesse, era ali que eu havia escondido os vinte mil francos de Rozaine junto das pérolas e diamantes de Lady Jerland.
Ah! Juro por tudo que há de sagrado que, naquele momento solene em que Ganimard e dois de seus assistentes me cercavam, nada mais me importava, nem minha prisão, nem a hostilidade do povo, nada, apenas me importava uma coisa: o que a Srta. Nelly faria com o segredo que eu lhe havia confiado?
Sem provas decisivas e materiais, eu não tinha nada a temer, mas será que a Srta. Nelly decidiria entregá-las? Será que ela me trairia? Será que ela agiria como uma inimiga que não perdoa ou como uma mulher cujo desprezo é atenuado por um pouco de indulgência, por uma simpatia involuntária?
Ela passou na minha frente. Eu me curvei, sem dizer uma palavra. Misturada aos outros passageiros, ela seguiu pela passarela, carregando minha câmera. Cogitei que ela não ousaria me expor em público, ela poderia escolher fazê-lo quando estivesse em um lugar mais privado. No entanto, quando ela chegou no meio da passarela, fingindo uma falta de jeito, deixou a câmera cair na água, entre o muro do cais e a lateral do navio. Então ela seguiu, e logo sua linda figura se perdeu no meio da multidão. Ela desaparecera da minha vida. Para sempre.
Por um momento, fiquei imóvel. Então, para espanto de Ganimard, murmurei:
– Que pena eu ser um homem desonesto…
Essa foi a história da prisão de Arsène Lupin, narrada a mim, por ele mesmo em uma noite de inverno. Os vários incidentes, os quais um dia escreverei, acabaram estabelecendo entre nós certos laços de… amizade, talvez? Sim, ouso acreditar que Arsène Lupin me honra com sua amizade, e que é por causa dela que às vezes ele me visita inesperadamente, trazendo, para o silêncio do meu escritório, sua alegria juvenil e entusiasmo contagiante com a alegria de um homem para quem o destino reserva apenas favores e sorrisos.
Sua aparência? Como posso descrevê-lo… Eu já o vi vinte vezes, e em cada uma delas ele era uma pessoa diferente. Ou melhor, era o mesmo ser, cujo reflexo em vinte espelhos diferentes teriam me mostrado tantas imagens distorcidas, cada uma com suas próprias peculiaridades, formas, gestos e até caráter.
– Eu mesmo – me confidenciou – já não sei mais quem sou. Não sei mais como é meu reflexo no espelho.
Uma piada, certamente, mas também um paradoxo. Quem o conhece sabe que ele é um grande ator, com uma habilidade impressionante de se disfarçar. Ele tem a capacidade prodigiosa de alterar a própria voz, as proporções do rosto e os maneirismos quando quiser.
– Afinal, – ele disse – por quê ter uma forma e aparência definidas? Por que não evitar os perigos de uma personalidade que nunca muda? Serei conhecido por minhas ações.
Então, adicionou, com certo toque de orgulho:
– É tão melhor se ninguém puder falar com absoluta certeza: ali está Arsène Lupin! O essencial é que todos possam olhar para o meu trabalho e dizer, sem medo de errar: Arsène Lupin fez isso!