As Incríveis Aventuras de Arsène Lupin, Assaltante Elegante

Autor: Maurice Leblanc

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Traduzido para o inglês a partir do original em francês por George Morehead

Clerkenwell Tunnel https://www.oldbookillustrations.com/illustrations/clerkenwell-tunnel/

As Incríveis Aventuras de Arsène Lupin, Assaltante Elegante, e-book do Projeto Gutenberg

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Título (inglês): The Extraordinary Adventures of Arsène Lupin, Gentleman-Burglar
Autor: Maurice Leblanc
Data de lançamento: 1º de julho de 2004 [e-book nº 6133]
Atualização mais recente: 8 de abril de 2023
Idioma: Inglês
Créditos: Nathan J. Miller e David Widger

Esta tradução para português do Brasil, feita por Lucas Rodrigues Oliveira, é autorizada de acordo com a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License. As imagens usadas neste trabalho são do site oldbookillustrations.com. Acredita-se que elas estejam em domínio público nos Estados Unidos e em outros países, pois foram reproduzidas em um livro ou documento que teve os direitos autorais expirados nos Estados Unidos e em outros países.

A captura de Arsène Lupin

Era um final singular para uma viagem inicialmente alvissareira. A rápida e agradável “La Ville”, que era usada para viagens marítimas extensas, tinha a capitania de um líder gentil. Quem embarcava fazia parte de uma casta seleta e fina. A energia das amizades recentes e as brincadeiras recém-criadas serviram para a viagem parecer mais rápida. A turma curtiu a liberdade de se separar da Terra e viver em uma ilha perdida, na necessidade de interagir ali.

Já refletiste que esses viajantes devem ser uma turma bem interessante e aberta? Um dia atrás, eram figuras estranhas, e, nesse dia, e em bastantes dias subsequentes, ficariam em uma vida de intimidade extrema, enfrentariam a fúria marinha, as marés terríveis, as tempestades implacáveis e a calma entediante e angustiante das águas. Uma vida assim vira uma espécie de existência trágica, vasta e turbulenta, entediante e diversa; e essa é a causa, talvez, de a turma decidir ir para essa viagem, numa mescla de prazer e angústia.

Mas, recentemente, uma ideia diferente surgiu além dessas. A ilha flutuante está reanexada à Terra, sem a liberdade de antes. Ela estava ligada à Terra até naquelas águas distantes, graças às mensagens telegráficas, que permitem que enviem cartas da maneira mais enigmática. É evidente que as mensagens viajam sem ser fisicamente. Um enigma diferente é ainda mais inexplicável, de mais beleza, e explicarei aqui esse milagre singular. Dia um da viagem: parecia que alguém seguia, cercava, vigiava a gente. Às vezes, a gente escutava à distância algumas palavras que vazavam da Terra. Alguns camaradas mandaram mensagens para mim. Algumas dezenas mandaram palavras alegres e tristes de despedida a diferentes viajantes.

Dia seguinte: à distância de 500 milhas da França, em uma tempestade terrível, “La Ville” recebeu a seguinte mensagem telegráfica:

Arsène Lupin está aí, primeira classe, barba amarela, canela direita ferida, viaja sem ninguém e tem a alcunha de R........”

Nesse instante, uma descarga elétrica intensa e barulhenta caiu das nuvens. A tempestade impedia a chegada de sinais de eletricidade. A parte final da mensagem era um enigma. A gente sabia apenas a inicial da alcunha de Arsène Lupin para se disfarçar.

Em circunstâncias diferentes, sei que seria viável manter a mensagem reservada para apenas alguns tripulantes dali. Mas essa circunstância era especial, calculada para diferir das mais rígidas e discretas. Mais tarde, e ninguém sabia a causa, a mensagem já era tema de intrigas, viajantes inteiramente cientes de que Arsène Lupin estava presente.

Arsène Lupin aqui! Um assaltante delinquente que teve pilhagens relatadas pela imprensa durante meses! Uma figura enigmática que Ganimard, grande detetive, enfrenta implacavelmente de maneira interessante e inusitada. Arsène Lupin, assaltante elegante que atua apenas em châteaux e palacetes e que, certa feita, invadiu a residência de Duque Schermann, mas saiu sem levar nada; a justificativa, uma mensagem, em que se lia: “Arsène Lupin, assaltante elegante, vai regressar se adquirirem itens de qualidade genuína.” Arsène Lupin, de mil disfarces, às vezes um engraxate, detetive, feirante, eletricista, dentista inglês, atleta belga, às vezes um rapaz, às vezes de idade avançada.

Pensa nessa circunstância alarmante: Arsène Lupin estava presente ali, em “La Ville”, numa área bem pequena, na sala de jantar, na sala de fumantes, na sala de música! Arsène Lupin era, talvez, aquele ali.... aquele.... talvez na mesa vizinha.... talvez na cabine vizinha....

“E vai ser quase uma semana assim!”, disse lady Nelly Underup, pela manhã. “É uma lástima! Que capturem ele!”

E, para mim, disse:

“E tu, d’Andrézy, és camarada das lideranças, deve ter alguma ideia...”

Ah, eu queria ter alguma ideia interessante para explicar para lady Nelly... Ela era um ser incrível, que sempre atrai interesses, inevitavelmente. Riqueza e beleza eram uma mistura irresistível, e ela tinha as duas características.

Educada em Paris e de mãe francesa, ia a New Jersey visitar duque Underup, pai dela. Uma amiga, lady Jerland, vinha também.

De primeira, tentei flertar; mais tarde, criei intimidade na viagem. Para mim, ela tinha um charme surpreendente, e minha ternura e minha reverência cresceram demais para um simples flerte. Ela também aceitava minha estima e exibia sua simpatia. Sempre ria das minhas piadas e tinha interesse nas minhas falas. Ainda assim, eu sentia a rivalidade de um rapaz chique e elegante, e pensava, às vezes: preferiria ela essa atitude reservada às minhas trivialidades parisienses? Ele era um entre inumeráveis simpatizante que cercavam lady Nelly na altura em que ela fez aquela pergunta. A gente descansava tranquilamente nas cadeiras. Passada a tempestade, as nuvens estavam claras. Era um ambiente sem adversidades climáticas.

“Nenhuma ideia, madame”, expliquei. “Mas será que a gente seria capaz de investigar à la Ganimard, rival particular de Arsène Lupin?”

“Ah! Ah! Calma aí, rapaz.”

“É viável, madame. Primeira pergunta: achas este enigma difícil?”

“Deveras difícil.”

“Esqueceste as pistas que tens para esclarecer este enigma?”

“Que pistas?”

“A primeira: Lupin usa a alcunha de R.........”

“Falta clareza nessa pista”, disse ela.

“Segunda: ele viaja sem ninguém.”

“E essa pista te ajuda?”, inquiriu.

“Terceira: ele tem a barba amarela.”

“E aí?”

“A gente apenas tem que pegar a lista de viajantes e eliminar.”

Eu tinha a lista citada. Peguei e vi quem estava nela. Em seguida, disse:

“Tem apenas dezessete viajantes na lista, sem incluir as mulheres, que atendem a premissa da letra R.”

“Apenas dezessete?”

“Sim, na primeira classe. E, desses dezessete, vi que treze deles trazem mulheres, crianças e serviçais. Restam alguns viajantes apenas. Primeira alternativa: marquês de Rakerdan...”

“Ele é da secretaria da embaixada americana”, disse lady Nelly. “Camarada meu.”

“General Rawfather”, segui.

“É meu pai”, disse alguém.

“Em seguida, Rivai.”

“Aqui!”, disse alguém da Itália, que tinha uma barba negra espessa.

Lady Nelly gargalhava, e aí disse: “Nada de barba amarela ali.”

“A seguir...”, disse eu. “A gente define que é a última alternativa da lista.”

“Quem é?”

“Seria Azuline. Alguém sabe quem é?”

Ninguém disse nada. Mas lady Nelly se dirigiu a um rapaz de mais reserva e quietude. Era ele que tinha uma certa simpatia dela e que era a causa de minha raiva. Lady Nelly disse:

“E aí, Azuline, vais ficar sem dizer nada?”

A gente analisava ele. Tinha a barba amarela. Até eu senti surpresa, e a quietude que seguiu a pergunta indicava que viajantes entendiam que as circunstâncias eram alarmantes. Mas a ideia parecia absurda, já que Azuline apresentava um quê da mais perfeita inculpabilidade.

“Sem dizer nada?”, disse ele. “Tem a letra R, um viajante sem mais ninguém, a barba amarela... Cheguei à mesma inferência, e minha ideia é que devem me prender.”

Em seguida a essas palavras, ele parecia diferente. Tinha a face bem pálida de repente. Evidente que era brincadeira, mas a aparência e a atitude dele eram estranhas.

“Mas tens a canela sem feridas?”, disse lady Nelly, de maneira ingênua.

“Sim, verdade”, disse ele. “Sem feridas.”

Ele puxa a barra da calça e exibe a canela, que estava intacta. Mas eu tinha uma certa suspeita. Ele exibiu a canela esquerda, e eu já ia alertar para essa diferença, mas uma circunstância distraiu a gente. Lady Jerland, amiga de lady Nelly, vinha apressada até a gente e disse:

“Minhas pedras, diamantes e esmeraldas! Levaram minhas pedras!”

Era diferente, na verdade, e a gente percebeu em seguida. Levaram apenas parte das pedras. Que interessante, deixaram braceletes de safira, anéis de rubi, pingentes de jade; levaram apenas as pedras mais caras. Em cima da mesa, apenas alguns enfeites. Mas sem as pedras; eram tais quais plantas, mas sem as belas pétalas, retiradas sem piedade. E uma façanha feita durante a tarde. Lady Jerland bebia chá, mas a câmara dela ficava numa ala bem frequentada. Um assaltante teria que invadir a câmara, buscar a caixa de itens de enfeite, que estava em uma caixa de chapéus, para distrair, abrir, eleger algumas pedras e separar das peças.

Evidente que a gente tinha a mesma inferência: era culpa de Arsène Lupin.

Na mesa da ceia, as cadeiras à esquerda e à direita de Azuline ficaram vazias. Mais tarde, falaram que ele estava atrás das grades. Essa ideia gerava um quê de segurança e tranquilidade. Era uma calmaria. Naquele dia, havia brincadeiras e dança. Lady Nelly, em especial, estava bem feliz, e pensei que, se as atitudes de Azuline agradavam ela antes, já estavam esquecidas. Ela tinha uma graça e uma alegria que me cativavam. Na madrugada, à luz da lua, declarei meu bem-querer intensamente, e me pareceu que ela estava feliz.

Mas, na manhã seguinte, para surpresa geral, Azuline estava livre. Disseram que as evidências eram insuficientes. Ele tinha a identidade perfeitamente regular; era de uma família rica de Lille. As canelas também estavam sem feridas.

“Papéis! Carteira de identidade!”, reclamavam rivais de Azuline. “Evidente, Arsène Lupin vai ter qualquer papel que eles pedirem. E a ferida nem existia, já estava recuperada, sei lá.”

Mais tarde, disseram que, durante a pilhagem, ele passeava pela parte de cima e curtia um ar livre. Rivais dele diziam que, para Arsène Lupin, era viável praticar uma pilhagem sem estar necessariamente presente. E, além dessas circunstâncias, ficava uma dúvida que nem viajantes mais descrentes sabiam explicar: quem mais viajava sem ninguém, tinha barba amarela e alcunha iniciada pela letra R? Se tirassem Azuline, quem a mensagem telegráfica indicava?

Antes de ir para a sala de café da manhã, Azuline se dirigiu à turma, mas lady Nelly e lady Jerland se levantaram e saíram.

Mais tarde, uma carta passava de um em um, para viajantes, tripulantes, etc. Ela anunciava que Pierre Azuline daria dez mil libras achasse Arsène Lupin/quem tivesse as pedras furtadas.

“Se ninguém ajudar, aí eu é que farei a captura!”, disse Azuline.

Azuline versus Arsène Lupin. Viajantes diziam que, na verdade, era Arsène Lupin versus Arsène Lupin. A disputa seria bem interessante.

Nada se sucedeu durante um par de dias. A gente sempre via Azuline; ele buscava, investigava, perguntava. Tripulantes também trabalhavam e faziam muitas atividades. Buscavam em diferentes lugares, em cada câmara. Pensavam que as pedras estavam disfarçadas em algum lugar. A ideia de estarem na câmara de quem era agente da pilhagem parecia errada.

“Devem achar alguma pista em breve”, disse lady Nelly a mim. “Ele sabe algumas mágicas, mas é irreal deixar as pedras invisíveis.”

“Sim, verdade”, repliquei. “Mas deveriam examinar chapéus, vestimentas, pertences de viajantes em geral.”

Aí exibi minha câmera, bem atual, que usei para fazer imagens de lady Nelly de várias maneiras, e falei: “Em uma máquina dessas, daria para guardar as pedras de lady Jerland. Daria para fingir fazer várias imagens, ninguém ia suspeitar.”

“Mas eu escutei que assaltantes sempre deixam pistas.”

“Geralmente, é verdade”, repliquei. “Apenas um é diferente: Arsène Lupin.”

“E qual seria a causa?”

“Ele pensa em uma pilhagem e nas circunstâncias ligadas a ela que serviriam de pista para a identidade dele.”

“Alguns dias atrás, tinhas mais fé nas buscas.”

“Sim, mas pude ver ele em atividade.”

“E que pensas atualmente?”, disse ela.

“Que é inútil.”

E, realmente, as buscas eram infrutíferas. Mas, durante as atividades, itens de tripulantes desapareceram. Era irritante para eles. As buscas tentavam seguir Azuline mais diligentemente ainda. Mas, na tarde seguinte, acharam um item da pilhagem mais recente na caixa de gravatas de um tripulante.

Esse incidente surpreendia tripulantes e viajantes e evidenciava a face sarcástica de Arsène Lupin, assaltante, sim, mas também diletante. Ele juntava labuta e alegria. Lembrava um piadista que quase falece de rir da piada que escreveu. Evidente que ele era um artista nessa atividade, e, sempre que via Azuline, triste e reticente, e pensava nas atividades duplas dele, eu chegava a ter uma certa estima.

Na tarde seguinte, um tripulante percebeu alguém que murmurava numa parte escura das dependências. Ele viu uma figura amarrada; era Azuline. Ele recebeu um ataque naquela tarde. Uma carta, em sua jaqueta, dizia: “Arsène Lupin aceita alegremente as dez mil de libras de Azuline.” Na verdade, a carteira pilhada tinha vinte mil libras.

Evidente que alguns acusaram Azuline de simular um ataque. Mas, além de ser inviável se amarrar daquela maneira, viram que a caligrafia na carta era diferente da de Azuline, mas lembrava bastante a de Arsène Lupin, retratada em algumas gazetas que viajantes tinham guardadas.

Parecia inviável para Azuline ser Arsène Lupin; ele era apenas Azuline, de uma família rica de Lille. E a presença de Arsène Lupin era reafirmada e deixava viajantes e tripulantes em alerta.

Nenhum tripulante queria ficar em cabines e andar em áreas vazias sem nenhum camarada. A gente andava em turma para ter segurança. E, ainda assim, surgiam suspeitas mútuas entre camaradas. Arsène Lupin era ninguém, mas também qualquer um. A gente imaginava que ele tinha habilidades mágicas e ilimitadas, achava que ele era capaz de disfarces difíceis de suspeitar. General Rawfather? Marquês de Rakerdan? Talvez (a gente ultrapassava a barreira da letra R) alguém de fama entre a turma, que trazia mulher, crianças e serviçais?

As primeiras mensagens americanas chegaram, mas sem atualizar nada. Nenhuma carta era repassada para viajantes. Essa apatia era inquietante.

Dia final: parecia que nunca ia terminar. A gente sempre temia algum desastre. E dessa vez seria um crime de verdade, assassinariam alguém, nada de assaltar, pilhar, etc. Ninguém imaginava que Arsène Lupin pararia em crimes leves assim. Ele era mestre naquele lugar, as lideranças eram incapazes, ele era livre para fazer qualquer atividade. As vidas de tripulantes e viajantes estavam à mercê dele.

Mas eu amei aquele dia, já que pude ficar na presença de lady Nelly. Ela era naturalmente impaciente e estava extremamente desestabilizada. Assim, buscava genuinamente minha presença e salvaguarda, e eu ficava bem feliz. Reservadamente, agradeci a Arsène Lupin. Afinal, ele trazia lady Nelly diretamente para mim. Graças a ele, eu pensava em amar e ser feliz, e eu achava que lady Nelly também aspirava essas ideias. Ela ria, e parecia que ratificava minha ideia. A fala suave dela me dava esperança.

A gente chegava em terras americanas, e as buscas, que pareciam paradas, se reiniciaram. A gente esperava impacientemente para que revelassem a chave desse enigma. Quem era Arsène Lupin? Qual a alcunha, que disfarce usava Arsène Lupin, assaltante de grande fama? Finalmente, seria ali. Se eu vivesse dez décadas, ainda lembraria detalhadamente.

“Estás pálida, lady Nelly”, disse eu. Ela se inclinava para mim, quase desmaiada.

“E tu?”, disse ela. “Ah! Mudaste bastante.”

“Apenas pensa! Que circunstâncias dramáticas! E na sua presença, lady Nelly. Será que suas lembranças, às vezes, vã...”

Mas ela nem escutava. Estava aflita e agitada. A passagem estava arrumada, mas, antes da saída de viajantes, alguns guardas entraram. Lady Nelly disse:

“Eu acreditaria se dissessem que Arsène Lupin fugiu durante a viagem.”

“Talvez ele preferisse perecer em vez da desgraça. Será que decidiu saltar nas águas para evitar a captura?”

“Ah, para de piadas”, disse ela.

De repente, me assustei. Aí, disse para ela:

“Vês aquele guarda em pé na passagem?”

“De guarda-chuva e jaqueta verde?”

“É Ganimard.”

“Ganimard?”

“Sim, detetive admirável que jura que vai capturar Arsène Lupin. Ah! Entendi a falta de cartas americanas para tripulantes e viajantes. Ganimard estava aqui! E ele sempre atua secretamente.”

“Achas que ele vai capturar Arsène Lupin?”

“Quem sabe? Se Arsène Lupin age, é sempre um final imprevisível.”

“Ah!”, disse ela, de maneira interessada. “Eu queria ver a captura dele.”

“Deverás ter paciência. Sem dúvida, Arsène Lupin já viu Ganimard e vai sair daqui sem se apressar.”

Viajantes desciam pela passagem. Ganimard segurava um guarda-chuva e parecia indiferente a quem saía. Marquês de Rakerdan, General Rawfather, Rivai, da Itália, e mais viajantes desembarcaram antes que Azuline aparecesse. Ah, Azuline!

“Será que era ele, afinal?”, disse lady Nelly para mim. “Que achas?”

Que seria interessante ter Ganimard e Azuline na mesma imagem. Pega a câmera. Descerei.”

Dei a câmera a ela, mas já era tarde. Azuline já passava de Ganimard. Uma guarda, à esquerda de Ganimard, murmurava para ele. Ganimard fez sinal de desdém, e Azuline seguiu. Afinal, quem era Arsène Lupin, meu Deus?

“É”, disse lady Nelly. “Quem será?”

Uns vinte viajantes ainda faltavam desembarcar. Ela analisava eles um a um; receava a ausência de Arsène Lupin entre eles.

“É inviável esperar mais”, eu disse a ela.

Ela partiu para a passagem. Eu segui. Dez passadas à frente, Ganimard apareceu.

“Ei, ei!”, exclamei.

“Um instante, viajante. Muita pressa?”

“Apenas guiarei a madame.”

“Um instante”, repetiu ele rispidamente. Em seguida, disse, de maneira assertiva:

Arsène Lupin, verdade?”

Eu ri e disse: “De maneira nenhuma, apenas Bernard d’Andrézy.”

“Bernard d’Andrézy faleceu na Grécia há seis meses.”

“Se Bernard d’Andrézy faleceu, minha presença aqui é inexplicável. Mas é uma falha sua. Aqui está a minha identidade.”

“É dele, e eu sei exatamente de que maneira pegaste essa identidade.”

“És um imbecil!”, exclamei. “Arsène Lupin usa a alcunha de R...”

“Sim, mais um truque seu, uma pista falsa enviada de Le Havre. Tens habilidade, mas, desta vez, tiveste azar.”

Hesitei um instante. Aí, um chute dele me atingiu na canela direita, e eu berrei. Ele atingiu minha ferida, ainda em via de se recuperar, citada na mensagem telegráfica.

Tive que me render. Era a única alternativa. Me virei para lady Nelly, que escutava a gente. Ela dirigiu a face para mim, em seguida para a câmera, que deixei para ela, e fez um sinal que me deu a ideia de que ela entendia. Sim, ali, na estrutura diminuta, na parte central da pequena câmera que tive a cautela de entregar a ela antes que Ganimard me capturasse, era lá que estavam as milhares de libras de Azuline e as pedras de lady Jerland.

Ah! Eu seria capaz até de jurar que, naquele instante, na vigilância de Ganimard e três assistentes, senti indiferença à minha captura, à antipatia de viajantes e tripulantes, apenas pensava em: que vai lady Nelly fazer acerca das libras e das pedras que eu entreguei a ela?

Na ausência de evidências materiais e decisivas, eu tinha calma, mas será que lady Nelly entregaria aquela evidência? Será que me trairia? Ela seria uma inimiga que age sem piedade? Teria, talvez, a raiva suavizada pela indulgência e pela simpatia impensada?

Ela passava na minha frente. Fiquei sem falar nada, mas me curvei em uma reverência. Misturada à massa de viajantes, ela avançava pela passagem e segurava minha câmera. Pensei que talvez ela deixasse passar a chance de me denunciar publicamente, mas mudasse de ideia em um lugar de mais privacidade. Mas, durante a descida, ela fingiu uma atitude desastrada, e a câmera caiu na água. Em seguida, ela desceu a escada, saiu de lá e sumiu de vista. Sumiu da minha vida para sempre.

Num instante, fiquei sem me mexer. Aí, para grande surpresa de Ganimard, eu disse:

“Que pena que é impraticável que eu seja um ser decente!”

Essa é a narrativa da captura de Arsène Lupin, que ele transmitiu diretamente para mim. Várias circunstâncias, que relatarei em chances futuras, fizeram a gente se unir mais... em uma amizade, talvez? Sim, eu me arriscaria a dizer que Arsène Lupin enxerga uma amizade entre a gente, e é pela amizade que às vezes ele me liga e vem até a tranquilidade da minha sala de leitura, sempre a exibir a graça, juventude, festividade e alegria de alguém que tem uma sina alvissareira.

A aparência dele? É difícil de descrever. A gente se viu umas vinte vezes; ainda assim, ele sempre estava diferente. Certa vez, me disse: “Nem sei mais qual é a minha face verdadeira. É difícil me identificar numa imagem refletida.” Ele certamente sabia atuar e tinha habilidade para se disfarçar. Sem usar muita energia, adaptava fala e sinais gestuais de alguém.

“É inútil”, dizia ele. “É inútil manter uma face e características fixas. Características sempre imutáveis seriam bem arriscadas. Minhas atitudes devem ser suficientes para me identificar.”

E aí ele disse, e dava para sentir um quê de vaidade na fala:

“É preferível que ninguém diga seguramente: ‘É Arsène Lupin!’ É mais relevante que falem de minhas atitudes e digam, sem chance de errar: ‘É uma façanha de Arsène Lupin!’”